No centro de Portugal, perto de S. Pedro do Sul, fica a aldeia da Drave, mais conhecida como a Base Nacional da IV, a “casa” de todos os caminheiros. Para lá chegar, os pés revelam-se o melhor meio de transporte. A caminhada foi longa, monte acima inicialmente, e depois a descida até à Drave, curvas e contracurvas, a noite fria e a chuva que caía tornava este início de actividade cheio de surpresas e algumas dificuldades que desencadearam um grande espírito de sacrifício e de entreajuda por parte de todos.
A ânsia de chegar ao local foi aumentando, e no final da caminhada era sempre a descer. Parar, só mesmo para admirar a paisagem à qual nos rendemos desde o primeiro instante, e fotografar o espaço, e as caras de contemplação de cada um de nós, a ver tamanha beleza.
Durante a nossa estadia na Drave, efectuámos os programas que a base tem para oferecer aos caminheiros. Caminho, Comunidade, Serviço e Partida, são as quatro dimensões do caminheirismo, e sob as quais se trabalhou através dos programas. A cada dia tinha sido atribuído um símbolo relacionado com a dimensão vivida, e à medida que os vivíamos, era entregue a cada um de nós peças com o símbolo desenhado correspondente à dimensão, que no final, todos juntos constituíam uma anilha para o lenço.
O Caminho foi vivido durante o primeiro dia, o símbolo era o caminho. A caminhada até Drave, tinha pedido muito de nós, tanto física como psicologicamente e, depois do almoço e do campo montado, era chegada a altura de reflectir, individualmente e em silêncio, sobre o nosso caminho, a nossa vida, sobre o nosso Projecto Pessoal de Vida (PPV).
No segundo dia, mais descansados, cumprimos o programa Sol, que tinha como símbolo o mundo. Este realizou-se ao longo de uma caminhada por Drave, por entre os caminhos que circundam a base e nos revelam a cada trilho, uma natureza selvagem, pura e simplesmente magnífica, a qual ainda não sofreu as transformações do Homem. Este programa foi feito por equipas constituídas por elementos dos vários agrupamentos. No final da noite, a seguir ao jantar, cada equipa apresentou uma peça sobre os momentos vividos durante o dia, e cada clã apresentou a lenda da sua zona. A noite já ia longa e o dia seguinte já se esperava trabalhoso e cansativo.
Já rendidos às belezas da Drave, o terceiro dia foi dedicado à nossa base. Como todos os clãs que vão à Drave, o programa do Serviço deve ser cumprido, quer seja durante um dia inteiro, ou apenas uma parte do dia. Neste dia, o símbolo foram as mãos. Acordados bem cedo, e já à espera do trabalho forçado, foram feitas novas equipas para este dia. No alto do monte, no caminho para a Drave, muito havia a fazer. O serviço que nos ficou atribuído foi o transporte de troncos (grandes e pesados), e arranjar as “bermas” da estrada de terra batida (na qual os carros já têm dificuldade em passar). Durante as horas que se seguiram o trabalho foi feito, mais uma vez, com muita união, alegria e também esforço. O tempo não melhorava, pelo contrário, as nuvens apareceram e a partir do almoço a chuva foi uma constante. Ao fim da tarde, e de modo a que as actividades continuassem, fomos para a “Casa do Silêncio”, uma das poucas casas existentes na Drave, e que possibilitou às equipas prepararem-se para o Fogo de Conselho.
O programa da Partida ficou guardado para o último dia, e tinha o fogo como símbolo desta última dimensão. Após as arrumações do campo, e do almoço, as equipas do dia anterior reflectiram sobre a actividade e os símbolos que durante esta nos possibilitaram uma experiência mais enriquecida, um crescimento pessoal e em grupo mais profundos. A nossa estadia na Drave terminou com uma pequena cerimónia preparada pelas equipas, e que reflectiu a dimensão da Partida.
Mais uma vez, de malas e material às costas, lá fomos monte acima, até ao início da estrada alcatroada na qual o autocarro nos esperava. Se pensávamos que as aventuras tinham terminado ali, enganámo-nos. A subida foi feita debaixo de uma forte chuva, um frio muito intenso e, para ajudar, o granizo começou a cair. No final da caminhada, o sol espreitou e no céu permaneceu. Até parece que tínhamos sido submetidos à nossa “prova final”. O que é certo é que chegados ao autocarro, já mais secos, o cansaço tomou conta de todos. Uns a dormir, outros apenas a descansar e a partilhar vivências, a viagem correu sem problemas.
À medida que a hora da despedida ia chegando, o sentimento de triunfo e realização era partilhado por todos. Demos as mãos, caminhámos como um grande clã, vivemos juntos as dificuldades e as alegrias, conhecemo-nos, crescemos … agora restam as recordações, os amigos, as fotografias, os vídeos, e claro, os e-mails.
Mais do que uma actividade de escuteiros, Drave foi uma experiência de vida!!!

